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Eis que me coloco diante de ti, Sabiá. Sei que em tardes de janeiro cantas audivelmente, vigorosamente, pelas frutíferas árvores. Porém, de melancólico, para mim, não tens nada. Sei o significado de cada nota dada.
Onde faz teu ninho Sabiá? Onde guarda, com tanto zelo, tua prole? Cuida, cuida para que cresçam como ti, de rubro peito; dois machos e uma fêmea, de preferência. E que o macho herda teu canto, tuas toadas, tuas pausas e melodias sem defeito. A fêmea: tua coragem.
Tens o canto perfeito, como a Sabiá da sala de seu Vicente Biscoito. Cria a teus descendentes, Sabiá. Passa teu canto adiante, perfeito. Quando cantas no bambual, não te vejo, mais ouço, ouço e quero mais. Quero o canto completo. A melodia perfeita. Como o Sabiá da Sala, de Seu Vicente Biscoito, que ficou cega. Coitadinha, de tanto cantar. “Ôô jornalista, essa eu não vendo não. É de Joana”.
Então canta: canta na grota querendo dizer: “Daqui não saio, daqui ninguém me tira”. E em disputa de canto, ele é quem manda. Se cantar mais forte, eu canto primeiro. Mas se quiser, chama no peito e é mais. Sabiá Laranjeira: és a mais bela. Que me desculpem as Cicas, Pocas e Unas; as Coleiras ou Goladas, Barranqueiras e Brancas; as Do-Campo e Bico de Osso também.
Tenho certeza que és tu, és tu a Sabiá de Chico Buarque, de Sá e Guarabira, de Luiz Gonzaga e Pixinguinha. Turdus Rufiventris: ave símbolo do Brasil. É teu: o canto de alvorada. Nenhuma plumada se arriscará a cantar prematuramente, antes que possa, depois de ti, com seu consentimento. Nem mesmo a ágil Garrincha ou Curríla, ou Cambacica, como queira o regionalismo, que canta escondida entre os troncos secos caídos.
Entre as Jacarandas das praças e largos, trava batalhas musicais entre demais exemplares. Busca sua cara metade, a mãe-sabiá. E quando a encontra, cuida. Cuida, cantando ainda mais alto, de peito estufado. Ela vai garantir a chance de prolongar a vida, prolongar seu canto e sua beleza.
Vai Sabiá, cuida de tua prole, cuida. Canta forte para que nenhum outro te atrapalhe. Propague seu canto perfeito por gerações e gerações. Cuida.
É uma pena, pois ainda restam cinco longos meses até que cante em busca de sua parceira. Reclamando seu território, teu ninho e tua prole. E ai então cuidar, cuidar. Passar adiante teu gene de perfeito cantor, o mais audível dos pássaros.
A ave de Gonçalves Dias; das palmeiras; das Laranjeiras e Figueiras. Das praças, do Rio, de São Paulo, de Pernambuco e Minas Gerais, esta última, se me permitem, principalmente. É lá, é lá que nasceu, viveu e morreu a Sabiá de Seu Vicente Biscoito, a Sabiá da Sala. Meu Deus, obrigado por ter me concedido a graça de escutá-la.
Quem Cantou o Sabiá:
Gonçalves Dias – Canção do Exílio
“Minha Terra tem palmeiras onde canta o Sabiá . as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá...”
Patativa do Assaré - O Sabiá e o Gavião
“Deus, o maió dos juiz,
No dia que resorveu
A fazê o sabiá
Do mió matéria
Que havia inriba do chão,
O Diabo, munto inxerido,
Lá num cantinho, escondido,
Também fez o gavião”.
http://www.revista.agulha.nom.br/anton01.html
Bernardo Guimarães poeta e romancista brasileiro (1825-1884)
“Quem te inspira o doce acento,
Sabiá melodioso?
Que mágoas triste lamentas
Nesse canto suspiroso?”
http://www.geocities.com/Athens/Olympus/3583/sabia.htm
Casemiro de Abreu - Canção do exílio (releitura)
“Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
Meu Deus! não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!”
Antonio Carlos Jobim / Chico Buarque
“Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar uma sabiá,
Cantar uma sabiá”
http://www.jobim.com.br/cgi-bin/clubedotom/musicas3.cgi?cmd=letra&letra_file=chico/sabia.txt&idmus=159&ling=port

criado por Bruno Leal
17:21:54